28.05.2007 |
Além do comer e do beber
O homem vive perdido na história, na sua própria história, advindo-lhe sofrimentos profundos. Está se desligando de referências fundamentais e acabam dando interpretação equivocada ao seu existir. Não raro, torna-se escravo do comer e do beber, no sentido lato. E, quando esse comer e esse beber se tornam enfadonhos, antes que sucumba à obesidade, o homo sapiens constrói fantasias, que o transportam para ainda mais longe das suas referências originais. Se sobreviver a todas as intempéries e alcançar idade avançada, terá o privilégio de vislumbrar lapsos do que deveria ter sido sua vida. Então, já será sem tempo. Mas, ainda assim, a mãe natureza o protege com o manto da loucura, disfarçada de senilidade, para, um dia, quem sabe, permitir-lhe a benevolência do retorno.
Mas não é necessário esperar o bafejo da decrepitude para, então, fazer um realinhamento de vida, mormente no âmbito da espiritualidade. Faça-o ainda jovem, quando poderá desfrutar, ainda neste mundo, a grandiosidade que é a vida, a vida além do “comer” e do “beber”. Alguns conseguiram – Jesus Cristo, Milarepa, Sidarta, Ghandi, Santo Agostinho, Saulo de Tarso – todos nos seus respectivos tempos e graus. Então, qualquer um pode conseguir, embora não seja fácil. Um bom começo é pensar que tudo que era fácil foi afastado de nós ou já superamos. O trecho mais difícil desse caminho é exatamente quando começamos a indagar “o que sou?” e “o que faço aqui?”.
Mas vale lembrar que esses questionamentos básicos significam o primeiro passo rumo à aurora boreal de nossos espíritos, mas pode também equivaler o bilhete para o manicômio. Destarte, as questões não podem e não devem ser formuladas com pusilanimidade. Hão de ser fincadas no âmago da razão e na certeza de que quem a fizer está disposto a percorrer o novo caminho. Nem pense em pedir ou esperar ajuda. Não as receberá de ninguém. Será alvo de chacotas. Mas não precisará de nada. Cada um traz consigo o necessário. É bom pensar que vai abdicar de tudo, inclusive terá de se descontaminar da obsessão pelo “comer” e pelo “beber”.
A compulsão pelo “comer” e pelo “beber” leva o indivíduo ao desatino, assim como louco fica o dependente químico, na ânsia pela droga. Sobrepõe-se até aos entes mais queridos para obter recursos com que possa adquirir o produto que vai satisfazer a ânsia malfazeja. Nos passos iniciais, pés e consciência pesarão como estanho. Mas tente deslocar-se um centímetro que seja, a cada dia, e, no dia seguinte, terá condições de sentir e perceber que o que parecia impossível e inviável não o é. Faça como o Bocage que, sabedor que o rei pretendia envenená-lo, disfarçadamente, num jantar em sua homenagem, da qual não poderia fugir, posto que lhe era vital não permitir que o monarca lhe sobrepujasse.
Então, tratou de colher informações, pelas vias secretas, com que veneno planejava o astuto imperador dar fim à sua vida. Ficou assustado com o alto poder letal da substância que lhe iria ceifar a vida, que tanta prezava. Diante disso, sem que o monarca soubesse que obtivera tão preciosa informação, pediu-lhe que o funesto jantar fosse marcado para prazo bem dilatado e começou a ingerir diminutas doses do tal veneno, sem que ninguém soubesse. Essas doses foram sendo aumentadas aos pouquinhos, de tal modo que, no dia do citado jantar, seu organismo já havia se habituado a uma dose suficiente para abater um elefante.
E, assim, compareceu à recepção tão alegre e animado como nunca na vida. Alegre e entusiasmado também estava o Rei, que não via a hora de se livrar daquele contendor que lhe era tão inconveniente e até então invencível. Fartou-se às gargalhadas com o lauto jantar na corte e nem se deu ao trabalho de se preocupar em que iguaria lhe seria servida a porção peçonhenta. Saiu da festa mais alegre do que chegara. O maquiavélico imperador esperou dias pelo resultado positivo da sua perfídia e nada aconteceu. Certo de que o astuto adversário não morrera e nem morreria, pelo menos daquela vez, convocou-o ao Palácio e o empossou em alto cargo da sua confiança.
A estorinha acima, se de fato aconteceu, foi única. Cada qual tem história e não estória própria. Vale para você que está a ler este artigo e mora em Livramento de Nossa Senhora. Lembramos-lhe que a primeira dose não será de veneno. Deus é mais rigoroso e preciso que o monarca daquela lenda. A dose para quem deseja começar a caminhada do realinhamento, cujos traços Deus já determinou, mas nem todos enxergam, é uma formiga. Quanto menor e inofensiva, melhor. Não valem pulga nem potó. Tem de ser uma inocente formiga. Primeiro, faça de tudo para enxergar todas as formigas que se encontrar por onde passar, no campo ou cidade. Durante seis meses, evite pisar em qualquer delas ou amiguinho dela. Se, acidentalmente, esmagar uma delas que seja, dobre o prazo e assim sucessivamente.
Se conseguir ultrapassar incólume seis meses, ou melhor, deixar as formiguinhas incólumes, provavelmente terá compreendido o sentido da vida. Mas ainda está na superfície. Antes da nova tarefa, vá ao mercadão da sua cidade, na feira semanal. Lá, procure por uma velhinha, baixa, sentada no chão, com um periquito trepado no seu ombro. Converse com ela o maior tempo que puder. Se tiver dúvida se é a mesma velhinha de que estou indicando, veja se os ombros dela estão sujos de bosta de periquito. Se estiver, é ela mesma. Não a deixe desconfiar de você. Faça tudo para ela ficar à vontade. Conheça um pouco da vida dela. Fale da sua também, sem chateá-la. Ao se despedir, deixe uma moedinha para ela, de R$1,00, em sinal de consideração.
O próximo passo é anotar, durante 30 dias, a hora exata em que o sol se põe no horizonte, mesmo se o céu estiver nublado. Se esquecer algum dia ou não puder anotar porque o sol esteve encoberto, acorde cedo no dia seguinte e anote a hora exata do nascer do sol. Depois dessa tarefa, você já não mais estará se achando ridículo. Então, já pode passar para a outra. Se estiver se sentindo enfadado, lembre-se de Bocage. A próxima é mais suave. Durante mais 30 dias, escolha uma flor diferente, em qualquer lugar, e conversa com ela, dizendo o que você acha dela e o que você sente por ela. Não pode arrancá-la e levá-la para casa. Acautele-se para que ninguém o veja, pois alguém pode achar que você está ficando maluco.
Quem conseguir chegar até aqui terá chances. É só fechar os olhos e, com os olhos fechados, fixar a visão na região situada entre uma sobrancelha e outra e pedir a Deus que lhe permita ir adiante e compreender toda sua obra. Peça com a mesma ênfase com que evitou pisar na formiguinha; com o mesmo amor e atenção com que conversou com a velhinha; com a mesma serenidade que anotou a hora do pôr e do nascer do sol; e com a mesma convicção com que conversou com a flor. Formule uma oração curta e repita-a diante de Deus pelo número de vezes que suportar, com a mesma certeza com que uma inocente criança pede algo ao pai. Faça isso e terá a maior surpresa de toda a sua vida.
Se estiver achando tudo isso uma bobagem, só restarão duas alternativas: esperar até você atingir os 90 anos ou simplesmente considerá-lo caso perdido. Esta última hipótese Deus não tolerará.
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20.05.2007 |
S.O.S. NATUREZA
Márcia Oliveira (*)
Abril de 2020.
- Nossa! Sinto tanta falta de ar... Que sufoco! Não consigo respirar direito... Cof!Cof!Cof!... O que aconteceu com o ar?
- Meu filho, tenha paciência... Talvez o ar volte ao nosso planeta... Talvez! Coloque a máscara para melhorar sua respiração, rápido!
- Mas, papai, está horrível! Não há plantas, os rios secaram, estamos comprando água, tudo se acabando... Não há flores, não há vento... Que desespero, meu pai!
- Filho, sei que é difícil pra você, que não conheceu o nosso planeta de anos atrás... Como era lindo! Havia a harmonia entre ele e o homem, o respeito aos animais e plantas era visível, mas isso foi há muito tempo, muito tempo!
- Pai, esta fotografia aqui é da Amazônia?
- Sim. É uma bela fotografia daquela que foi denominada “pulmão do mundo”, meu filho. Não sei se foi exagero das pessoas chamá-la assim, mas era uma vastidão imensa de verde, parecia que não tinha fim... Mas teve um destino terrível!
- Por que, hein, pai? Por que fizeram isso com a natureza – presente que Deus ofertou ao mundo, com tanto amor?
- Acho que não soubemos valorizar tão belo e essencial presente. Vital, para todos nós. Se tivéssemos cuidado melhor dela, não estaríamos usando constantemente esta máscara de oxigênio... A camada de ozônio estaria íntegra, os rios não teriam morrido, os oceanos estariam infestados de baleias, as tartarugas-marinhas, o mico leão dourado e a arara-azul não teriam sido extintos... Como teria sido bom, se tivéssemos, naquele tempo, consciência da preservação do nosso verde, das nossas terras, dos nossos animais, do ar puro que respirávamos... de tudo que era tão belo!
- É tarde demais, não é papai?
- Creio que sim, filho. Creio que sim! É tão triste!
- Hoje, eu pediria de presente a você, não um computador, um celular, uma moto ou uma máquina digital. Pediria de volta a natureza que eu não conheci – o ar natural, abundância de água, plantas e animais, para enfeitar este cenário tão opaco, sem luz, sem vida, sem beleza! Este seria meu presente, pai.
- Este presente não poderei ofertá-lo, meu filho. Está longe das minhas possibilidades, mas comprarei um computador, da mais alta tecnologia, pra você. Certo? Assim, você amenizará essa dor, essa tristeza!
- Só me resta navegar na internet e me contentar com as belas imagens de uma natureza que um dia existiu! Ou, então, folhear livros que trazem fotografias daquelas espécies animais e plantas que, hoje, estão, simplesmente, como nós: inertes, diante do trágico acontecimento – a natureza morta. Sonhos desfeitos!
- Cof! Cof! Cof!
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(*) Márcia Oliveira é licenciada em Letras e professora de Literatura e Língua Portuguesa do Colégio Estadual João Vilas Boas, em Livramento de Nossa Senhora-Ba
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10.05.2007 |
Sedução tecnológica
(Relendo este artigo, que escrevi em 1996, impressionou-me sua atualidade e decidi transcrevê-lo)
É sedutora a discussão em torno da evolução tecnológica da humanidade, mas ela é duvidosa quanto ao destino final do homem. Quem se der ao trabalho de analisar a história, perceberá que há uma oscilação entre a questão metafísica e o plano técnico da civilização. Vide os tempos dos reis, que se diziam representantes diretos de Deus, e fases como a que culminou com a revolução industrial. Há também hiatos de hediondas maluquices, como as guerras e os extermínios humanos, a exemplo do que foi liderado por Adolph Hitler.
É temerário pensar que a tecnologia evoluída conduza ao paraíso, do mesmo modo não se pode discutir questões metafísicas sem estabelecer uma ligação com a realidade. Isso significa que o problema é muito mais simples, contanto que não se dê mais importância, por exemplo, ao namoro pela internet do que ao encontro corpo a corpo, ao tocar das mãos, ao beijo e a outras manifestações afetivas humanas. Pode ser uma visão pessoal, questionável, mas o dia-a-dia é o maior sábio do Universo e nos permite enxergar claramente que existe um projeto humano em desenvolvimento. Pode ser facilmente constatado que ele funciona, salvo quando sofre interferências negativas do próprio homem. E o funcionamento está visível exatamente nas pequenas coisas do cotidiano.
Talvez não saibamos interpretar os sinais recebidos da própria natureza. Todavia, podemos fazer perguntas simples como “por que chove?”, “por que um beija-flor posa de flor em flor?”, “por que as pessoas sentem dor?”. As questões técnicas estão sendo discutidas [hoje em dia] fora desse contexto, as organizações estão sendo pensadas sem levar em conta isso, as crianças estão sendo educadas fora dessa realidade.
Não se dá atenção a isso, mas chora-se diante das catástrofes, das doenças incuráveis, das desarmonias, das impossibilidades e de todas as coisas que a tecnologia não explica e nem resolve. É preciso, portanto, que se busque um sentido para a vida e que ele esteja além do comer e beber e das facilidades proporcionadas pelo avanço tecnológico.
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02.05.2007 |
No velório do futuro vereador
Raimundo Marinho
Caro amigo, não consigo compreender a razão de estar aí tão quieto. Nunca vi você tão sério. Ontem, falava de tanta coisa, até de férias. Agora, jaz aí inerte, imperturbável e indolor. Nem me avisou. Ao invés da morte, você preferia as probabilidades da vida. Eu sei. Detestava a realidade dos obituários. A inconsistência da lógica nos oprime, mas a buscamos prodigamente. De preferência que seja sem sentido. Não há sentido em encontrar o sentido da vida. Você, por exemplo, vivia a procurá-lo e, depois que encontrou, fica aí morto. Queria que você visse essa gente em volta. Algumas mulheres choram. A ex-sua olha para elas e parece aliviar-se. Será que é porque você está aí deitadinho? Há alguém querendo fazer um discurso. Tremo de medo. E você detestava discursos em velório. Pena que você não vai ouvir. Você desencarnou-se, como dizem os espíritas, mas eu é que tenho medo. Toda vez que morre alguém, pensamos que viver é inócuo. Tão que todos morrem. Mesmo assim não planejamos nossa morte. Seria familiar? Nessa hora, apesar das lágrimas, descobrem que você não era tão indispensável. Conseguem ligeirinho a coisa mais deprimente de tudo: o caixão, indefectível. Deviam inventar uma caixa mais bonita. E, se não houver morte, meu caro amigo? Se tudo não passar de um grande equívoco? Seria uma brincadeira muito pesada. Porisso insisto em dizer que há de ter sentido. Por exemplo, será que você foi tão inútil assim que morreu. Eu não acredito. Mesmo quietinho aí você não me engana. Não voltará para tirar a dúvida, mas eu preciso dizer alguma coisa para o leitor. Até agora ele está esperando que eu dê uma luz. Digo o quê? Ah, a semente!? Pode ser de feijão? Você quer que todo mundo pense nos milhões de pés de feijão que existem dentro de um simples caroço? Deveria ter dito vivo. Tá bom, nunca é tarde. - Todos pensam mesmo é em comer o feijão. - Calma, calma, não fale! Você está morto! É inútil e insensato falar o que quer que seja, agora. Imagine que nós, todos aqui à sua volta, lacrimosos, com certo medo, pensando que dia será nossa vez, e você, aí, falando! Não, não faz sentido. Tem gente que não está nem aí. Mas eu não consigo parar de pensar. Por exemplo, será que você já sabe para onde vai. Será que para a glória de Deus, para o limbo umbralino ou para os quintos? Como saber... Sei que você não era lá muito católico, nunca entrou numa igreja evangélica. Centro espírita? Esconjuro-te, nem pensar. Mas, olha você errado! Deveria ter ido. Como vai, agora explicar lá encima por não ter sido nem uma coisa nem outra. Não vale responder, malcriado a Deus: “como saber qual era a certa?”. Ele vai simplesmente lhe dizer que “o universo é redondo, todos os caminhos conduzem a mim”. O que??? Sua eleição para vereador??? Você não havia me dito. Mas logo para vereador! Para deputado não servia, não? De qualquer jeito, esquece. Você já morreu mesmo. Não conte comigo para isso. Sabe Deus onde você vai estar daqui a pouco. As mulheres??? Que mulheres??? Ah, sim! Estão rezando. Não, elas não estão ouvindo você. Esqueceu? Você está morto. Mortinho da Silva. Nem faça essa cara de pavor. Logo, logo, estará dentro de uma tumba, onde miríades de vermes esperam pelo seu corpo. Nem acredito que estou, aqui, feito um pateta, conversando com você. Aliás, você nem está falando nada. Mas eu estou ouvindo. Caro amigo, sinto muito! Meus pêsames! Já vão baixar o caixão. É o pior momento. Os soluços aumentam. Alguns apressados já estão indo embora. Não quero nem pensar como você vai respirar aí dentro, caso volte a si. Não, não, isso não vai acontecer. Sim, caro amigo. Ia colocar aquele frase na minha lápide, mas você morreu primeiro, vou colocar logo na sua. Sim, aquela: “Aqui jaz um mortal comum. Tão comum que morreu logo. Aos que me amaram, um beijo, agora frio, destes lábios sem sangue. Aos que me odiaram, o lembrete de que, na vida, é possível, a todo momento, haver mal-entendidos”. Adeus! Meu caro futuro vereador! Adeus! E não se preocupe, aqui vai continuar tudo na mesma!
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