28.10.2007
SÚPLICA DA NATUREZA
Autor: Gilberto Brito (*)
Não faças isso comigo não, criatura, eu sou a sua mãe. Sou tão boa para tu
e para teus irmãos todos.
Faça, não. Sofro. Sofro muito. Tu fazes isso e eu vou me entristecendo, murchando e a cada momento perdendo vigor, energia, morrendo. Cada dia que passa tu vais fazendo
assim: maltrata hoje, maltrata amanhã, todo dia, toda hora, sem parar um segundo, sequer. E olha que eu não te nego nada. Tudo que tens, eu te dei. Tudo que queres, eu
te dou. Dou para você e meus outros filhos todos. Até os que nada pedem, não choram, nada dizem, sequer pensam, pois juízo não têm.
Eu quero continuar a servir a vida inteira, o tempo todo. Dia e noite, sem nunca parar.
"Papai" me criou ensinando a cuidar de vocês todos, preocupado no aperfeiçoamento, na glória, no bem. Até "os outros", os que vivem matando para viver, "respeitam" o que "Papai" ensinou. Só comem o tanto certo, sem acabar com a espécie da qual é "irmão". Aliás, um serve ao outro, constituindo uma família grande, bonita, harmoniosa, unida, repleta de tudo que é bom.
Vamos permanecer coesos, pensando um no outro. Não é preciso pensar em mim, não. Eu dou o meu jeito. "Papai" me dá forças. Pense em teus irmãos. Pense nos meus netos, nos teus filhos. Tu já pensastes se Adão e Eva não tivessem existido? Então, como você quer acabar comigo? Só eu tenho tudo que tu queres e nada te cobro, nada te peço. Só quero paz, respeito, sensibilidade.
Até a inteligência que tu tens e por meio dela me agrides, eu te dei. A força, a cor, a beleza, a saúde, o pão do sustento, a luz, a energia, o oxigênio de tocar o pulmão. A água de beber, coisa tão gostosa, tão boa. Eu te faço dormir, te faço até sonhar um sonho lindo, em lugar gostoso, de paisagens lindas, com amor. Até amar eu te ensinei. Eu te ensinei como fazer o teu próprio filho, a continuação de cada um.
Até filho meu que não é irmão seu, te serve tanto. Te ajuda. Sou eu que mando ele te servir. E você, o que me dizes, o que falas? Diga em que errei, onde errei. Eu te eduquei com amor, respeito e ordem. Te dei do vigor da força ao repouso eterno do cansaço que a vida traz.
Eu sou a única mãe que gera, pare, cria e depois recolhe ao ventre. A minha placenta é eterna e o meu leite nunca seca. Meu prazo de procriação está nas suas mãos, filho querido. Eu quero continuar parindo, criando, frutificando, te dando irmãos. Fecunda para tudo, para todos e para o bem.
Eu quero ver crianças a sorrir.
(*) Gilberto Brito, ex-prefeito de Paramirim-Ba, é deputado estadual.
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21.10.2007
A pior guerra é a interior. Interior de nós mesmos
Márcia Oliveira (*)
Os conflitos que estamos vivendo no aqui e agora das nossas vidas nos fazem mergulhar num mundo de guerras íntimas. A angústia que norteia as horas intermináveis, o medo de enfrentar o novo, os desafetos diários no convívio familiar, as decepções com os ditos “amigos”, a ambição que se faz presente em todos os segmentos da nossa jornada, o stress tão em moda, a solidão dos momentos em que o silêncio nos faz ouvir o nada como resposta...
Guerra, guerra, guerra – nós estamos travando batalhas com o nosso próprio “eu” e as respostas surgem através das nossas reações tão inesperadas, agressivas, estúpidas. Ninguém nos maltrata. Nós é que nos permitimos ser maltratados. Ninguém nos agride. Nós é que permitimos a entrada dessa agressão em nossos corações – ninguém machuca ninguém, às vezes nós buscamos as dores que chegam fazendo morada em nossas vidas – o que precisamos é aprender a expulsar essas nuvens negras que sobrevoam os nossos pensamentos – esses, por ventura, atraem o negativismo para os sentimentos que nutrimos por alguém - aí está instalada a guerra – essa inimiga do bom senso, da razão, da tolerância...
Buscamos já, a solução para as contendas infinitas que nos agonizam, que aterrorizam os nossos sonhos, pois a vida é um manancial de beleza – nós, com nossa intolerância, ambição, teimosia, arrogância – é que a enfeiamos e nos enfeiamos também.
(*) Márcia Oliveira é professora de Língua Portuguesa e Literatura do Colégio Estadual João Vilas Boas, em Livramento de Nossa Senhora.
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21.10.2007
Chuva que vem
Autor: Gilberto Brito (*)
Calor brabo, céu limpo e azul, sem barra no além.
Noite chega , só estrela. Sinal, só um: rã coaxando, cururu cantando. Durmo pensando no dia que vem.
Antes que nasça por traz da serra, o sol vem encoberto por mantas escuras, sem a ardência de ontem, trazendo esperança, e não queima “fulô” de mandacaru.
E assim corre o dia, com sopro do norte, lembrando um ontem distante que faz cultura de fé, na luta bravia, de todo Zé.
A noite que volta tem céu carregado, pesado, sem luz. De lá vem riscos de fogo e roncos que matam a tristeza. É canto bonito, é coisa do bem.
Eu durmo, sonho, acordo chamado pela maviosa orquestra no telhado do meu ninho, e logo me invade o peito delicioso cheiro brotado das entranhas da terra, agradecida pela chuva bendita que lhe traz de volta o verde da esperança.
As “água” chegou! Cebolinha brota, bezerro pula, borboleta sai, riacho desce, rio cheio, formiga voa, caatinga desabrocha e tudo recomeça.
Molhada a terra que antes roçada e queimada. “Sabiá e Bem te vi” puxam arado, tombando o fecundo ventre que recebe a semente, fazendo nascer bendito catador, que com pouco batismo garante o sustento, trazendo de volta xotados pelo destino, na busca do sustento, das plagas do sul.
E assim passa o ano, mais ano e mais ano.
Sonho, penso e acredito que mesmo depois da ardência da vida e inclemência do sol, a misericórdia nunca permitirá a mudez da rã e o silêncio do cururu, quais profetas e cantadores do meu chão, nem a esperança e bravura da heróica gente que, no palco real da vida, alimenta minha doce inspiração.
Noite de 06/07/2007.
(*) Gilberto Brito, ex-prefeito de Paramirim-Ba, hoje deputado estadual.
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03.10.2007 |
(O texto a seguir reproduzido, com autorização do autor, é da lavra do atuante deputado estadual Gilberto Brito, filho da vizinha cidade de Paramirim. Embora, como pode ser visto, se refira a uma planta típica do sertão, o poema traduz de forma precisa a inspiração que tivemos ao nominar nosso veículo on line de “O Mandacaru”).

Sou Mandacaru
Autor: Gilberto Brito
Não dou sombra nem encosto, é o que dizem de mim. A sombra aconchega, protege, conforta, inspira, dá prazer. Nada disso Deus me deu. O encosto descansa, alivia, socorre de “mal da hora”, até da tontura da fome, da sede. Isto também o homem diz que não dou.
Mas o Criador sabe o que faz: não tenho folhas, tenho espinhos. Se as tivesse, o sol que arde e a tudo seca não me permitiria ter um verde exuberante, que conforta meus irmãos sertanejos quando na caatinga sêca buscam um sinal de vida, um ponto de fé. Grandioso, "Ele" ainda reserva em mim a derradeira esperança e o último sustento dos bichos pastoreios que no final não têm “de cumê”.
“Ele” foi tão bom que me fez como um caminho de justiça. Só o homem pode retirar de mim o sustento seu e dos seus. E quando faz para estes, dá os meus pedaços doídos aos que mais precisam, aos que já estão no girau. Depois eu rebroto, eu revivo sem sombra e sem encosto, mas com o verde da esperança.
Deus me deu o sentido da mãe protetora. Em mim, entre meus raros e espinhentos galhos, os mais fracos fazem os ninhos, na defesa dos que mais podem. Quem em mim faz o “berço” para a procriação dos seus, lagartixa não bebe ovo, nem viril gavião come as indefesas e depenadas criaturas que mais tarde enfeitam, voando no espaço infinito do céu.
Depois de tudo isso, quando eu “fuloro”, a chuva chega e dá o meu eterno verde ao resistente sertão.
Manhã de 25/09/07, depois de fotografar, no sertão, um ninho, num pé de mandacaru.
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