ARTIGOS | Raimundo Marinho

 

23.04.2007 |

Elas por nós

Presto minha homenagem, com atraso, ao “Dia Internacional da Mulher”, 8 de março, aproveitando texto de um artigo antigo. Foi proposital, pois considero injusto que apenas um dia do ano lhes seja dedicado. E, dessa forma, protesto. Como será que foram lembradas? Como pessoas? Objetos sexuais? Mão-de-obra mais barata? Consumidora? Ou uma simples classe? Prefiro desconfiar que foi com menos amor do que deveria ter sido. O homem falta redimir-se do erro histórico e espiritual de passar por cima delas em tudo. Antes, em tempos mais idos, isso se dava pela força, pelo autoritarismo. Hoje, é pela enganação, pela traição, pela discriminação, aproveitando-se, não raro, do modo fácil como costumam chorar, da força como amam e da dificuldade com que deixam de amar.

Até mesmo algumas delas incorrem em falha, cedendo ao machismo. Talvez induzidas e envolvidas pelo processo civilizatório e cultural que a jocosidade universal tenta preservar. Poucas são as esperanças de correção de rumo da espécie humana na Terra, caso o planeta não venha a ser olhado pela candura dos olhos de uma mulher. Nesse caso, é bom que ela colabore e não os cubra com as cores de uma lente de contato, no sentido real e no simbólico. Poucos pressentem os sons espirituais que conduzem cada um pela vida, atropelam a mensagem do profeta e desdenham as mensagens que cruzam seus caminhos.

Mesmo em meio à turbulência que é a vida, sempre paro para sentir o perfume de mulher, na simbologia e na realidade das emanações físicas, que a química dos desodorantes ainda não conseguiu abafar. É um sentir agradável, como o deitar no colo da mãe. Delas, há muito a sentir, e a docilidade que exprimem é suficiente para vencer as tolices machistas. Muitas deixam marcas em nosso viver e em nosso emocionar - pelos sorrisos, olhares, gestos, posturas de vida e até pelo mal com que nos respondem. No meu caso, primeiro D. Maria, pela memória maternal de meus primeiros passos em direção a ela, e dizendo-lhe “mãe”. São tantos os registros, como as lembranças cinematográficas de Adriana Prieto, que o cinema perdeu tão jovem; da brava Jodie Foster e de Samantha Eggs. Assim como a determinação televisiva de Fernanda Montenegro; o jeito quase másculo de Betty Friedman e Conceição Tavares.

Cada qual de nós tem imagens semelhantes da expressão de mulheres a evocar. Perto de nós, há tantas outras, de afetos íntimos ou de saudáveis amizades. Sei do perigoso e da inconveniência em citar nomes, posto que tantos nomes, femininos e masculinos, embarcam e desembarcam no vagão da vida onde nos encontramos. Além, claro, do pecado maior da omissão. Mas não seria honesto se aqui não mencionasse as que estão no meu coração, como a sisudez infantil e, agora, o sorriso adulto, carismático e, quem sabem, nem tão mais inocente como foi um dia, de Samantha Marinho; e o jeito reservado, mas profundamente acolhedor e carinhoso de Sara Marinho.

Mas há mulheres que nos abrem o coração, nos convida a entrar e nos coloca entre o Céu e a Terra, sentindo, ao mesmo tempo, a pequenez do homem e a grandeza de Deus, envolvendo-nos com a leveza da paz. Então, descobrimos, quando isso ocorre de verdade, que nunca estivemos antes em tal lugar e em qual condição tão benfazeja. Falo do coração de Márcia Oliveira, em cuja alma enxergo a planície dos jardins astrais.

Felizes os poetas que as cantam, as mulheres, de modo maravilhoso, capazes de ver encanto em detalhes mínimos, feios, escondidos, foscos, como os cabelos molhados, tristes e na lágrima que rola à primeira emoção. Há as que apenas choram e as que sorriem, mas passam a impressão que choram. As que, bonitas, fazem-se feias e as feias que transmitem muita beleza.

Dependemos, todos, delas, as esposas, as namoradas, as companheiras, as filhas, as alegres e as tristes, as tímidas e as determinadas, as magras, as gordas, as altas, as pequeninas, as chorosas e as dedicadas. Acima de tudo, são todas mulheres, são todas meninas. São o símbolo da nossa esperança. Que elas sejam por todos nós!

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15.04.2007 |

Perigo que vem da manga

A fruticultura tornou-se a maior riqueza do município de Livramento de Nossa Senhora, na Bahia, elevando a produção econômica a níveis nunca imaginados. São cerca de 8.000 hectares plantados, dos quais 5.500 em produção, à base de 15 toneladas por hectare, gerando faturamento bruto aproximado de R$74.250.000,00 por safra. Com a técnica de indução floral, objeto deste artigo, que permite duas safras anuais, o montante pode elevar-se para R$148.500.000,00. O maracujá, o outro carro-chefe da fruticultura local, rende valores semelhantes.

Seria razoável desejar que essa realidade gerasse impactos positivos na vida da coletividade, contribuindo, por exemplo, para melhorar as condições sociais, a partir da geração direta de emprego e renda. Mas há dúvidas sobre se assim acontece. Na verdade, predomina o subemprego. O município ostenta índices vexatórios de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, principalmente na zona rural. Nas zonas urbanas, são notórias a insuficiência, em alguns casos, e a precariedade em outros, na oferta de serviços básicos, como saúde, educação, saneamento, limpeza, urbanismo, trânsito. É constante a quebra das regras de ocupação e uso do solo e de preservação ambiental.

 

Riqueza privada

Vislumbra-se pelo menos dois lados perversos dessa riqueza privada, que faz inveja aos gestores públicos, que lidam com um orçamento minguado de R$24 milhões anuais, conforme a previsão para 2007, ainda por cima mal aplicados. A primeira dessas perversidades refere-se à concentração daquele faturamento. A Prefeitura tem participação zero no resultado da produção e inexiste preocupação por parte dos produtores em brindar a coletividade com algum tipo de retorno social. Os empreendimentos agrícolas de Livramento estão longe de se desincumbirem satisfatoriamente da função social prevista na Constituição Federal.

Muito ao contrário, vêm tendo um comportamento predatório, do que é exemplo a dilapidação dos recursos hídricos, o envenenamento da fauna e flora municipais, decorrente da aplicação desregrada e abusiva de defensivos agrícolas e outros produtos químicos utilizados na indução da frutificação, bem como a subtração de pagamento do salário legal aos trabalhadores rurais e do conseqüente recolhimento dos encargos sociais e previdenciários. Há uma distribuição coletiva dos ônus, cuja repercussão é perigosa e tem alcance imprevisível, ante o que o poder público queda-se conivente.

 

Silêncio incômodo

Tudo isso ocorre sem que a coletividade reaja, embora possa ser visto facilmente. Mas as pessoas, incluindo as autoridades, comportam-se como se nada estivesse acontecendo. Chega a ser escandalosa a quantidade de produtos químicos jogada nos pomares e absorvidos pela natureza, inclusive pelos frutos que a população consome. Até a via legalmente obrigatória de retorno social é sonegada, que seria o pagamento do salário mínimo aos trabalhadores nos pomares, com o obrigatório recolhimento dos encargos sociais, como previdência e FGTS.

Há intermediários até para a mão-de-obra rural. O trabalhador é pago por dia, reunindo no máximo R$260,00 por mês, que vai representar uma defasagem de R$120,00 em relação ao novo salário mínimo. Nem parece que no município existe um Sindicato de Trabalhadores Rurais. Temos informação de que a diária nos pomares é de R$15,00, mas o trabalhador só recebe R$13,00, a diferença é descontada em favor do agenciador da mão-de-obra, que também faz o transporte dos “bóias-frias”. É subemprego!

 

Risco de doenças

A outra perversidade a que nos propusemos apontar ocorre no âmbito da natureza. Na ânsia por mais dinheiro, os produtores manipulam o ciclo normal de vida das plantas, de modo a obter uma safra a mais por ano.  A extraordinária expansão da área plantada não bastou. Busca-se, agora, exaurir a planta, agredindo seu metabolismo, para obtenção de mais riqueza, a se concentrar entre poucos. Restará à comunidade como um todo, a coleta do lixo social, a um preço altíssimo, que se materializará no futuro, quando a fauna, flora e os mananciais hídricos estiverem irremediavelmente comprometidos.

Esse comprometimento se tornará visível, e assombroso, quando começarem a nascer bebês atrofiados e formas mais severas e desconhecidas de câncer e outras doenças estiverem a dizimar a população humana, como já ocorreu com os urubus e outros animais da fauna local, trazendo grave desequilíbrio ao ecossistema. Hoje já existe certa preocupação com o elevado índice de tumores prostáticos, na região, embora ainda não haja dados que indiquem serem resultantes da ingestão de produtos agrícolas contaminados por agrotóxicos e outros produtos químicos. 

 

Árvores estupradas

O método de indução da frutificação da manga, acima referida, está descrito no livro “A cultura da Mangueira”, editado pela Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, aplicável especialmente no sub-médio vale do São Francisco e no semi-árido. Pelo menos no capítulo específico consultado, a obra é escrita em linguagem técnica pura e elegante, mas tivemos a sensação de estar lendo a descrição de um estupro praticado contra as mangueiras, regado a produtos químicos de efeitos colaterais não revelados. Mas pelo menos um é considerado nefasto, que é o nitrato, à base de chumbo.

O ciclo de floração natural das mangueiras, no sub-médio vale do São Francisco, ocorre de maio a agosto, quando o clima é mais seco e as temperaturas noturnas é inferior a 20 graus, diz a obra consultada. É o que parece acontecer também em nossa região. Pelas leis da natureza, isso é o normal e assim deveria ocorrer, sempre. Contudo, pelas leis econômicas, ou, para usar o nome de um monstro anônimo e indecifrável, pelas leis do “mercado”, essa lei natural cria as chamadas “janelas de mercado”. Ou seja, haverá meses em que as mangueiras estarão inativas e o mercado sem o fruto.

 

“Giberelina” pura

Então, os produtores decidiram recorrer à indução artificial da floração, para suprir essas “janelas de mercado” e também para evitar a coincidência de safras. Do ponto de vista mercadológico e da ganância, nada mais perfeito. Mas vejamos como isso é feito. O metabolismo de crescimento das mangueiras é regulado por uma substância ácida, própria de plantas superiores, chamada “giberelina”, hormônio que suprime a “biossíntese”, inibindo a floração e estimulando o crescimento vegetativo da planta. O processo de floração é igualmente regulado por outra substância natural da planta, o “etileno”.

O “etileno” pode ser liberado por intervenção humana, para manipular a floração, com aplicação do produto químico chamado “etefon”, que é o “ácido 2 cloroetilfosfônico”, através de pulverizações nas plantas, em dosagens controladas. Geralmente, seu uso é combinado com o chamado “estresse hídrico” e ou com outro produto químico, o “paclobutrazol”. Em situação natural, a planta comporta-se, conforme os ciclos climáticos, de modo “vegetativo” ou “reprodutivo”. Isto é, em condições favoráveis, ela tende a permanecer no estado “vegetativo”, mas tão logo as condições tornem-se desfavoráveis, como elevação de temperatura, a planta entra em processo reprodutivo.

 

Planta é “enganada”

Isso acontece de forma natural, segundo os ciclos de temperatura e as estações do ano, ou seja, pelas leis da natureza. É como a natureza programou a planta para frutificar e consequentemente produzir as sementes que vão assegurar a sua perpetuação no ecossistema. Está determinado nos próprios ciclos naturais reguladores da temperatura, ante o qual a planta é submetida ao “estresse hídrico”, o mesmo que falta de água. No estado “vegetativo”, ela “interpreta” essa condição desfavorável como uma ameaça e, “temendo” morrer, “apressa-se” em florar e gerar frutos, entrando no estado “reprodutivo”, e assim garantir a semente que vai perpetuá-la.

E aí surge a perversidade humana, fruto da ganância ou, num juízo mais ameno, das necessidades econômicas. Os produtores identificaram aquele fenômeno natural e passaram a reproduzi-lo de forma manipulada, “enganando” as mangueiras, mediante técnicas de “estresse hídrico” fora de tempo, artificial, combinado-as com o uso de produtos químicos. Com isso, eles controlam, ao seu talante, os comportamentos “vegetativo” e “reprodutivo” da planta, atuando diretamente na função da “giberelina” sobre a “biossíntese”. No caso, a árvore é submetida, em um ano, a dois “estresses”, o que a desestrutura fisiologicamente e reduz substancialmente sua longevidade.

Há, ainda, outro modo de se obter resultado semelhante, mais violento. Trata-se do uso do produto chamado “paclobutrazol”, que estimula a floração, ao paralisar o crescimento vegetativo da planta e reduzir o alongamento da brotação, pela inibição da “biossíntese”, com o hormônio “giberelina”. O produto é absorvido pelas raízes, tecidos dos ramos e folhagem. Esta tende a se apresentar em verde-escuro e os frutos assumem coloração mais intensa. Os produtos utilizados nesse processo possuem alto teor cancerígeno. Entre eles, estão: sulfato de potássio, etefon, nitrato de potássio, paclobutrazol, nitrato de cálcio.

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31.03.2007 |

Abrangência da vida

(Transcrito da Página Política de 27.02.2007)

Não é fácil captar a realidade e, principalmente, interpretá-la ante a diversidade de gostos íntimos e multiplicidade dos quereres que movem uma comunidade, não obstante a aparente igualdade entre os humanos.  Os gostos, desejos e teses de uns costumam contrapor-se aos de tantos outros, dando origem às discordâncias e aos conflitos, tornando-se obrigatório reconhecer que na convergência daqueles postulados a harmonia se estabelecerá. Esse é o ideal dos pacifistas e espiritualistas, mesmo sabendo da tênue possibilidade disso ocorrer por completo, dado que para cada mente que vai, amadurecida pelo envelhecimento, outras dezenas renascem para se submeter ao mesmo processo.

Essa é a dinâmica da vida, não devendo, entretanto, servir de motivo para a indiferença e muito menos omissão diante da estupidez e da corrupção de certos intelectos, em especial dos que se comprometem a gerenciar bens coletivos e comandar o destino dos povos. Nada justifica a negligência ou a perda da capacidade de indignação contra atos e comportamentos que ferem ou ameaçam ferir a paz e o bem-estar das pessoas e ou do ecossistema, o que inclui todas as formas de vida que militam no planeta em busca da evolução.

Apesar da superação de pendências tecnológicas e científicas, outrora consideradas intransponíveis, a despeito de necessárias ao processo de educação dos povos, o mundo hoje parece mais medieval do que fora no começo. Vejam-se as barbáries registradas no nosso cotidiano, envolvendo a convivência humana, como a morte cruel do garoto João Hélio, por bandidos no Rio de Janeiro; e o caso do cidadão que matou vários membros da sua família. E não precisa ir tão longe, veja a tragédia de conhecida família em Livramento de Nossa Senhora, em que duas crianças foram friamente assassinadas, em 2006, pelo próprio pai.

Os fatos extraordinários comovem e chocam e são seguidos de lamentações e providências de ocasião, enquanto a raiz dos nossos problemas subsiste, como a indicar a inexorabilidade que firmam o destino deletério do homem, pelo qual ninguém se sente verdadeiramente responsável. Teriam razão os que apregoam a “queda do planeta” ou, como preferem outros, o “fim da espécie humana”? Na minha tosca maneira de ver, não. Seria um erro original e essencial privilegiar esse minúsculo ponto no espaço, em detrimento da imensidão do Universo.

Visto assim, o massacre de uma formiga é tão relevante quanto o de um ser humano, pois pode significar o início ou ausência da compreensão lógica quanto ao valor e necessidade de preservação da vida, que na perspectiva do Universo tem um sentido abrangente. A falta de consciência ou desatenção no tocante a isso pode explicar os fatos cotidianos rotulados de tragédias humanas. Somente um tolo poderia negar, então, que o formigueiro devastado, o boi abatido, o frango degolado representam, igualmente, uma tragédia para as respectivas espécies.

Tudo que incomoda o homem tende a ser por ele eliminado (a muriçoca, a formiga, a barata, a cobra .... e o próprio outro homem). Então, não há esperanças, hão de perguntar. Mas claro que há, a partir de quando cada pessoa começar a inverter um pouco a ordem das coisas, falsamente ordenadas, e passar a se ver como seu próprio incômodo. Nesse momento, ficará surpreso e envergonhado, ao perceber como a Terra e o Universo cumprem o seu destino. Por conseguinte, a Terra e o Universo não precisam de solução, mas o homem sim.

Outra pergunta seria como solucionar o homem, que não se sensibiliza com os avisos da natureza e se posta como senhor absoluto da Terra. Os arrogantes morrem, os déspotas morrem, os orgulhosos morrem, os pretensiosos morrem, os facínoras morrem, os ricos morrem, os pobres também, mas nem diante de tantos cadáveres os vivos se tocam. Assim posto, como solucionar essa fera demolidora. Gosto de particularizar o raciocínio, por entender que facilita a compreensão e por acreditar que as mudanças somente podem ser efetivas e ter amplitude se iniciadas no íntimo e na solidão individual.

O simples arrumar da própria cama, ao se levantar, antes mesmo da higiene bucal, pode significar um extraordinário começo, principalmente se na casa houver uma arrumadeira. Uma ajeitadinha no tapete do banheiro, quem tiver, a colocação da roupa suja num cesto ou saco plástico ou uma mera descarga, para alguns, no banheiro, seriam outros passos gigantescos. Depois, poderá limpar o quintal, fechar a torneira que pinga, desligar o chuveiro enquanto se ensaboa, dar um bom dia, ajudar alguém com alguma dificuldade cotidiana, ou quem sabe, liderar um movimento pela limpeza da rua onde mora.

Quem se dispuser a se submeter a este teste, que para muitos será doloroso, enxergará a grandeza da passagem do homem pela Terra. E mais, estará apto a comandar outros tipos de mudanças. Pois sim, comece!